"…pedaços de sonho, jardins
para os nossos olhos passearem, lembranças obscuras, iluminações
intermitentes, palavras tresmalhadas, janelas da sua alma, a sua natural
respiração.
A pintura do Luís é encontro e desencontro, é
uma certa dose de solidão, é um eco, uma ténue ponte,
a luz da madrugada, o discreto marulhar da água na secura da paisagem,
a fronteira entre o ontem e o hoje, um projecto de viagem."
Cruzeiro Seixas
"A escrita pictural de Luis Athouguia desenvolve-se com base numa sugerência
cromática e neo-romântica, não raro com tons de feitiço,
cores sirénicas, onde os pastéis muito bem doseados e esgrimidos
organizam-se a partir de um núcleo que acaba por ser sui generis.
A linguagem do Autor serpenteia à volta e no âmago de
uma meada cromática de matrizes fascinantes onde a luz (do étimo
latino luce) é rainha, não consorte, não par de cama,
mas rainha-mor; trata-se de uma luz vivaz, que já fecundou o pó,
pô-lo a caminho, rumo á pátria da água. Abeiramo-nos,
afirmativamente, de um sonho com maiúscula, mas, para lá
da construção desse habitat onírico, descortina-se
um adestramento superconseguido na combinatória das cores, que são
fixadas ou impostas ao suporte impelidas pela força táctil
das mãos.
Luis Athouguia afigura-se-nos ser um artista renovado, com uma pulsão
encantatória nos objectos visuais que desvenda. Acaba, outrossim,
por mostrar-se cénica a sua proposta; em definitivo, situada entre
um diapasão de ruptura e o gosto lavado que a Arte assumida no tempo
confere, desde os Gregos ( de notável qualidade de pensamento, mas
profundamente ignorantes…) até ao signo dos foguetões sábios,
dos beijos cibernautas e dos corações feitos de lata e arames.”
Fernando Grade
"São paisagens oníricas, que tomam a luz como ponto de
referência, e que revelam, em contornos definidos por uma geografia
circular, grutas, correntes marinhas, naves, colunas, numa plasticidade
orgânica onde, inesperadamente, encontramos símbolos ocultos,
ou em flagrante evidência.”
Manuela Gonzaga
“Luis Athouguia não procura retratar a humanidade em si, mas
o que é exterior à humanidade.
A sua pintura tem uma forte ligação com a luz, num jogo
de contrastes claro/escuro, em que a luminosidade parece esconder-se atrás
dos primeiros planos, espreitando aqui e ali o momento certo para saltar
ao nosso encontro.
Algumas das suas telas são autênticos vitrais pictóricos,
onde se chega quase a adivinhar o que se esconde lá fora. Outras
são olhares microscópicos com o olho nu da Alma. Outras ainda
são rápidas espreitadelas para o interior do além,
em que a força das imagens permite um registo marcante.”
João Antero Ferreira
“...A sua pintura é reveladora de uma procura de sinais, interiores
e exteriores, em diálogo constante entre a luz e a matéria,
entre as vozes da alma e as formas quase carnais que parecem habitar em
alguns dos seus quadros, como organismos vivos e autónomos. Por
toda a sua obra perpassa, em inconfundíveis matizes, um desejo expresso,
ou sonho incontido, de liberdade e harmonia, que tem eco em todos nós.”
Paulo Machado de Jesus
“No íntimo do seu trabalho... o mínimo gesto reflecte
como que uma religião pessoal de saudável cepticismo, e frágil
equilíbrio no traço que descreve o frisson da sua própria
vertigem da sua vida, e num eterno renascer para o quotidiano exercício
da meditação, como no gestualismo zen... evocando, no simbolismo
dos seus sábios traços, a memória das góticas
miragens do manuelino, na busca dessas Índias espirituais, onde
em vórtices de luz se vislumbra a esperança de uma redenção...”
José Bivar
“São peregrinações vagabundas por paragens oníricas,
erótico-sentimentais, um fascínio quase obsessivo pela fuga
curvilínea remetendo para uma espacialidade deliberadamente interminável.
....a grandeza solitária das paisagens interiores veste-se de
formas caprichosas, que a luxúria prodigiosa da sensibilidade e
da imaginação vai criando um pouco em cada dia, um pouco
em cada obra.”
Vicente Borges de Sousa
“A pintura de Athouguia é-nos dada por uma subtileza de traço
notável, numa leveza a roçar o deslumbramento, onde a luz
se espalha em cambiantes vários de cores aveludadas, criteriosamente
escolhidas numa harmonia perfeita, equilibrada, onde o sensual muitas vezes
desperta e parece espreitar por entre as rotas curvilíneas extraídas
de uma mola imensa de todos os valores abstractos.
José Eliseu
“Uma viagem pelo sonho, onde Athouguia fará reviver as suas
paisagens abstractas num passeio de matizes que remetem para imaginários
neo-românticos.
Um discurso onírico que carece sempre de reflexão e interpretação
perante a obra e na memória visual… Que é cativada pelas
cromias conseguidas face à técnica apurada que o autor, no
desenvolver da sua actividade, consegue e multiplica com prodigiosa sensibilidade,
ora tirando parte do fascínio das curvas, remetendo para o infinito,
ora canibalizando paisagens interiores numa luxuriante tentação
entre cor e forma.
Vitrais opacos que revelam jogos de contrastes, reflexos e particularidades
a que o espectador passa a compelido cúmplice face ao efeito quase
hipnótico conseguido.”
In o Diabo (27.02.2001) |